Coragem
A palavra do ano
“Coragem”
A palavra brilhava na tela do celular, numa caixa de texto azul-clara. Era meio de janeiro de 2026, eu tinha acabado de chegar à rodoviária de Brasília, vindo de BH para passar uns dias antes de regressar a Palmas(TO) e encerrar minhas férias. Como é de praxe, abri os aplicativos de paquera/pegação/putaria (chame como quiser). Ser “carne nova” numa cidade é divertido, rende uns likes, uns papos, mas raramente encontros. Os crimes noticiados não me deixam esquecer do risco.
Ainda zonzo da noite na estrada, já imaginava do que se tratava a mensagem, especialmente vindo de um perfil sem fotos ou informações. Já prevendo o desfecho do papo, ainda assim decidi tirar a prova e respondi.
“Por quê?”
“Coragem de postar essa foto com essa barriga mole caída.”
Sorri, bem, não era mentira. Na minha foto de perfil apareço de corpo inteiro, de sunga, e hoje minha barriga está mesmo mole e caída. Perdi muito peso nos últimos anos, é natural.
“Bem, pelo menos eu tenho coragem de postar alguma foto, ao contrário de você.”
Vi minha resposta surgir na tela numa caixa de texto amarelo-ouro e bloqueei o admirador misterioso. Geralmente bloqueio direto essas pessoas, esse tipo de comentário já deixou de me afetar faz anos, mas a palavra “coragem” solta me pegou ali por se tratar de uma bela coincidência.
Algumas semanas antes, foi justo “coragem” a palavra que escolhemos, eu e alguns amigos, para ser o tema de 2026. Desde 2018 fazemos isso, o que significa que na métrica atual é uma tradição antiga. Outras palavras positivas e de afirmação ou de coisas que queríamos trabalhar em nós já passaram por esta lista, e calhou de ser essa a de 2026. E isso acabou confluindo para algumas coisas e reflexões, inclusive para eu entender a pausa involuntária nos textos da newsletter.
A série sobre tarô aqui ma Mercúrio em Peixes me empolgou, mas sabia que ela iria empacar quando eu tirasse uma carta difícil. Pelo menos difícil para mim. E foi isso que aconteceu, saiu o Cavaleiro de Paus, justo a figura mais impetuosa do naipe mais complicado pra mim. Em geral me falta fogo, me falta… coragem. Meditei muito sobre a carta, porém o texto não vinha.
Tive um ano difícil, com questões de saúde do corpo e da mente. A ansiedade me pegou de um jeito que torceu meu ano. Lembro de minha primeira crise de pânico, ainda na pandemia. E de estar no consultório do psiquiatra depois, ouvindo ele comentar que a ansiedade era a doença do medo, e do medo de ter medo. Discordei em silêncio, para mim seria a doença do controle. Agora vejo que uma coisa alimenta a outra, já que o controle é justo para mitigar o medo, e o medo é de perder o controle. Ovo e galinha. Sempre tive uma personalidade ansiosa, mas o trem virou doença mesmo de uns anos pra cá. E com a doença do medo, a proposta de ter mais coragem este ano vem bem a calhar.
Uma expressão que já usei muito e ainda ouço muito é “vai com medo mesmo”. Não quero mais não. Não quero mais sentir este receio do que vem ao abrir a caixa. Quero ir com coragem, com expectativa que virão coisas positivas, ou pelo menos confiança que estou apto a lidar com as negativas. Sem a necessidade de prever e me prevenir contra todos os desfechos.
Sabe um medo que eu tinha e tenho? De falar dessas coisas aqui, de me expor dessa forma. Em tempos de compor as bios com os próprios diagnósticos, ainda estou preso na mentalidade de ocultar os meus, pelo menos em ambiente digital. Ao vivo sou mais tranquilo, e entre as idas ao pronto socorro em momentos de crise, vou trocando ideia com todo tipo de gente, e ao confessar que tenho passado mal com a ansiedade vou encontrando mais gente que padece do mesmo problema, ou que tem alguém próximo na mesma tempestade. E assim a gente vai se apoiando em e apoiando estranhos pelo caminho.
Calar as próprias dores parece até um mecanismo para nos alienar ainda mais uns dos outros e evitar a formação de redes de cuidado. Uma vez, lendo sobre dor crônica, achei algo interessante, que as pessoas não deixam de sentir dor, elas deixam de reclamar. Talvez por medo. Medo da rejeição, de ser chato, de dar trabalho para os outros, de mobilizar rede de apoio. Medo da fala deixar tudo mais concreto. Porém, a fala pode ser o primeiro passo e a melhor estratégia para nomear, e a partir daí lidar de alguma forma com os incômodos.
Já é fevereiro e neste pouco mais de mês exerci a coragem. Aceitei convites que antes recusaria sem pensar, tenho tentado me expor mais, devolver alguns desconfortos. Isso envolve este espaço aqui também: terei algumas “linhas editoriais” em mais três séries temáticas além da de tarô. Para me organizar, criei um selo para cada uma, que mostro em primeira mão aqui:
O plano agora é, se me sentir bloqueado para um lado, explorar os outros, e assim evitar a escassez de textos. Me desejem sorte!
E aí, qual foi a última vez que deixou a coragem te guiar ao invés do medo?
No mais, sem mais,
Abraços ictiomercuriais,
Thiago Ambrósio Lage (@thamblage)
Gotas de mercúrio
Que tal ler um conto carnavalesco?
Carnaval encarnado - “Um ano é o intervalo entre duas terças-feiras de carnaval.”
E, de ano em ano, um antigo pirata veste a carne de um folião em Olinda, matando a saudade de velhos desejos e prazeres. Ao subir e descer a Rua 13 de Maio, acaba, sem perceber, escrevendo um capítulo na vida de seu hospedeiro da vez.
Carnaval Encarnado, publicado originalmente na edição de julho de 2021 da revista A Taverna, é um conto de fantasia urbana adulta e queer em ritmo de frevo. O conto pode ser obtido aqui.
Não resisti e fiz uma playlist encorajadora. Ficou muito em MPB mais antiga, são música de uma época que exigiu muita coragem. Como é o tema do ano, depois faço uma internacional ou focada em outros gêneros.
Outros planetas, outros metais, outros signos, outros animais
Comentei que perdi muito peso nos últimos tempos, e uma parte essencial disso foi voltar com a prática regular de atividade física, levando a sério como nunca tinha levado antes. E este velho novo hábito virou uma newsletter a quatro mãos numa colab divertida com a anacronista.
Na Segredos em órbita mais recente, uma discussão impactante e num grau de honestidade raro sobre perder peso. Me contempla em tantos aspectos que é difícil comentar. Eu tinha um texto num antigo blog, de 2010, em que eu falava um pouco sobre gordofobia. Vivo pensando em editar e jogar aqui, e talvez ainda faça isso movido pelo texto da Vanessa. Apenas leiam.
Me identifico tanto com os textos da Surina que chega a ser assustador. Impossível não lembrar de minhas crises de choro, e dos tempos em que eu não pude chorar.
Obrigado pela leitura!
Se gostou da newsletter, pode querer conferir o que tenho produzido como escritor em meu site, ou pode querer apenas me seguir no instagram e ficar por dentro de minhas bobagens e novidades, e até ver a minha barriga mole e caída.
(os links para a amazon presentes na newsletter são links de associado: comprando qualquer coisa por eles você para o preço que pagaria normal, mas eu embolso uma pequena comissão).












coragem ❤️ obrigada por me presentear com uma palavra para reger esse ano também.
amo vc, amigo. bora cavalinho de fogo!! 🐎🔥
que bom que você voltou!!coragem e sorte, lindeza!